sábado, 25 de setembro de 2010

Uma música, um livro, um café

Outro dia, ouvindo rádio no carro, fiquei cismada com uma música, pensando se a havia entendido bem. Dizia no refrão I like the way you lie ("gosto do jeito que você mente"), I like the way it hurts ("gosto do jeito que isso dói"). Qual seria o objetivo daquilo ? Por que uma mensagem tão pesada ? Mas ao mesmo tempo tive um lampejo de esperança de que a música pudesse esclarecer para algumas pessoas que determinados relacionamentos podem não ser saudáveis e que elas, de alguma maneira, gostam de mantê-los. Talvez a letra as fizesse pensar. E pensar em mudar. Refleti sobre isso, em intervalos, durante algumas semanas até que o livro chegou às minhas mãos.


Foram dias de stress e grandes descobertas. Em uma casa onde ninguém falava inglês, encontrei um livro na gaveta de uma mesa de cabeceira de um quarto em que ninguém dormia. O nome que estava escrito no livro era de alguém que nunca havia estado ali e a edição era de 1962.  O título era em francês, mas o conteúdo havia sido traduzido para o inglês. Era certamente o livro de alguém que ainda estudava a língua, pois diversas das palavras estavam grifadas, destinadas a um confronto com o dicionário. Quando o publicou a autora tinha 24 anos; a personagem principal, 39.


Paule, contava a autora, era uma mulher envolvida em um relacionamento complicado com um homem que não se comprometia. Deixava-a a esperar não só por ele mas por qualquer atenção verdadeira que lhe pudesse dispensar. Vivia na solidão. Não dispunha do olhar - "lacaniano" - do outro sobre ela. Depois de ser tão negligenciada e sempre a par das amantes com quem ele desfilava sem pudor, ela se envolveu com um rapaz quatorze anos mais novo. Ele se apaixonou e viveram uma história juntos. Ele preenchia sua vida, tirou-a da solidão. Mas, passado um tempo, ela escolheu voltar para o homem que a abandonava. Ela gostava do jeito que ele mentia. Gostava do jeito que isso a fazia sofrer. E mergulhava em seus livros no sábado à noite. O vácuo em que ele a deixava tornara-se, para ela, mais importante que a felicidade. Mas li esse livro em um só dia; dois dias depois de tomar um café com a minha mais antiga amiga.


Pensei que a conversa tomaria outros rumos. Mas como desejava há muito tempo, falamos de assuntos profundos. Depois de cinco anos de psicanálise ela estava pronta e perguntou o que eu sabia sobre o que ela queria saber. Contei. Falamos sobre a música, mas o livro eu ainda não havia lido. Falamos sobre um casal que, de tanto se restringir ao seu próprio mundo, acabou por adoecer um ao outro. Por agravar o estado mental de um sob a tortura e o prazer do outro. Falamos sobre o quanto temos de estar atentos às nossas necessidades e respeitarmos nossas identidades, nossa dignidade, nossa coragem.


E ao ouvir a música, lembrarmo-nos do livro e da vida real. Para que seja real, de fato. Para que não a deixemos escondida sob nossos medos e vergonhas. Que venham à tona as verdades, ainda que tenhamos que interpretá-las para compreendê-las. Mas elas têm que emergir, sair de suas cascas e tirar-nos de nossa solidão.


A música é Love the way you lie, composta por Marshall Mathers, cantada por Eminem e Rihana.
O livro é Aimez-vous Brahms..., de Françoise Sagan (pseudônimo de Françoise Quoirez).
O café da foto fica em Notting Hill, Londres, mas não foi lá que nos encontramos... Tomamos café no California Coffee, do Diamond Mall.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O segredo da Vitória

O segredo dessa moça é receita
guardada num frasquinho:
conheça seus limites e desejos,
lute por eles com delicadeza e determinação
assim encontrará o brilho e a doçura
o perfume e a delícia da vida.
Nesse caminho, você já sabe,
há muitas pedras.
Desvie-se delas. 
Use seu charme, se preciso,
e muita criatividade.
Não desista de quem você é
para se tornar o que nunca foi.
Confie no seu coração e na sua verdade.
E quando tiver vontade de chorar
- essa corrosiva solidão maldita -
lembre-se de que estamos ao seu lado
mesmo que para além do Adriático.
Houve um momento em que também chorei
Precisava de um pai que me levantasse e me guiasse
Mas ele nunca existiu de fato
Descobri que essa figura tinha que ser eu mesma
E passei a exercer o papel que seria dele
De me proteger
de desejar para mim o que houvesse de melhor,
fazer com que eu acreditasse que merecia.
E assim aconteceu.
Talvez esse seja le secret de victoire...
Passamo-lo nos lábios para lembrar de não esquecer.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Joie de vivre

Acabou a hibernação
Apesar de ainda estar bem frio
É tempo de acordar
Os caracóis deslizam sonolentos
Mas sabem que a festa já começou
A vida se renova
Dieta, pedalação
Alegria de viver, entusiasmo
Planos e projetos
Nada como um dia depois do outro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Poética filosofia da conta bancária

Poesia é que nem conta bancária
Que é que nem filosofia
Não se deve falar sobre
Mas há que se saber.
Deve-se depositar muito
e sacar apenas o necessário,
mas bem discretamente.

Todos três ajudam a viver melhor
A poesia ajuda a manifestar o que a filosofia só tenta entender
Não são assunto,
mas subsídio.
Não são palavra,
só argumento.
Astúcia, recolhimento.

"Vento, diga por favor...."

Se pudéssemos ter de novo todas as pessoas e seus momentos....
A amiga que ensinou a descascar cebola,
a outra que engravidou aos 19,
a que abortou aos 17 e era tão querida...

A avó que picava couve
O padeiro que dava suspiro
As ladeiras de Lisboa,
que também têm vida

A professora de ballet
A de piano
E a música que não aprendemos a tocar
Nem a dançar
Porque a única que ouvimos
é o silêncio dessa gente
que um dia fez parte da nossa vida
E o vento não conta onde se escondeu.

Tempestade

Tentei malhar
mas não consigo
Parece que tem algo maior
para o que estou guardando meus músculos
(e minha celulite).

Como um animal hiberna
Tento sobreviver à mudança do tempo
Mas é inútil
Porque mudo junto com ele
E não tenho só quatro estações.

Não sei onde é minha próxima parada
Por isso não me movo
Para quem não sabe onde vai chegar
A calmaria é uma tempestade.

Já disse Manoel de Barros:
"Em casa de caracol,
até o sol encarde."

Hoje fui às compras

Hoje fui às compras.
Comprei um monte de coragem
Ela vem em potinhos coloridos
cujo conteúdo a gente passa nos olhos
antes de sair de casa.

Comprei também algumas certezas
Muito necessárias para não nos sentirmos nus de nós mesmos

Já a auto-confiança
Tive que procurar por longo tempo
Mas acabei encontrando.
Perguntaram-me se queria que as embalasse em caixas ou saquinhos
Preferi estes, assim posso acumular mais, em menos espaço.

Na hora de pagar, fiz o que se faz;
adiei para o mês que vem.
Tomei tempo emprestado,
achando que o comprei.
Tempo pra estar alegre,
no fim, gato por lebre.
Cor que apaga,
Pano que desbota,
Calçado que machuca.
A única que não falha
é a conta debaixo da porta.