Poesia é que nem conta bancária
Que é que nem filosofia
Não se deve falar sobre
Mas há que se saber.
Deve-se depositar muito
e sacar apenas o necessário,
mas bem discretamente.
Todos três ajudam a viver melhor
A poesia ajuda a manifestar o que a filosofia só tenta entender
Não são assunto,
mas subsídio.
Não são palavra,
só argumento.
Astúcia, recolhimento.
terça-feira, 13 de julho de 2010
"Vento, diga por favor...."
Se pudéssemos ter de novo todas as pessoas e seus momentos....
A amiga que ensinou a descascar cebola,
a outra que engravidou aos 19,
a que abortou aos 17 e era tão querida...
A avó que picava couve
O padeiro que dava suspiro
As ladeiras de Lisboa,
que também têm vida
A professora de ballet
A de piano
E a música que não aprendemos a tocar
Nem a dançar
Porque a única que ouvimos
é o silêncio dessa gente
que um dia fez parte da nossa vida
E o vento não conta onde se escondeu.
A amiga que ensinou a descascar cebola,
a outra que engravidou aos 19,
a que abortou aos 17 e era tão querida...
A avó que picava couve
O padeiro que dava suspiro
As ladeiras de Lisboa,
que também têm vida
A professora de ballet
A de piano
E a música que não aprendemos a tocar
Nem a dançar
Porque a única que ouvimos
é o silêncio dessa gente
que um dia fez parte da nossa vida
E o vento não conta onde se escondeu.
Tempestade
Tentei malhar
mas não consigo
Parece que tem algo maior
para o que estou guardando meus músculos
(e minha celulite).
Como um animal hiberna
Tento sobreviver à mudança do tempo
Mas é inútil
Porque mudo junto com ele
E não tenho só quatro estações.
Não sei onde é minha próxima parada
Por isso não me movo
Para quem não sabe onde vai chegar
A calmaria é uma tempestade.
Já disse Manoel de Barros:
"Em casa de caracol,
até o sol encarde."
mas não consigo
Parece que tem algo maior
para o que estou guardando meus músculos
(e minha celulite).
Como um animal hiberna
Tento sobreviver à mudança do tempo
Mas é inútil
Porque mudo junto com ele
E não tenho só quatro estações.
Não sei onde é minha próxima parada
Por isso não me movo
Para quem não sabe onde vai chegar
A calmaria é uma tempestade.
Já disse Manoel de Barros:
"Em casa de caracol,
até o sol encarde."
Hoje fui às compras
Hoje fui às compras.
Comprei um monte de coragem
Ela vem em potinhos coloridos
cujo conteúdo a gente passa nos olhos
antes de sair de casa.
Comprei também algumas certezas
Muito necessárias para não nos sentirmos nus de nós mesmos
Já a auto-confiança
Tive que procurar por longo tempo
Mas acabei encontrando.
Perguntaram-me se queria que as embalasse em caixas ou saquinhos
Preferi estes, assim posso acumular mais, em menos espaço.
Na hora de pagar, fiz o que se faz;
adiei para o mês que vem.
Tomei tempo emprestado,
achando que o comprei.
Tempo pra estar alegre,
no fim, gato por lebre.
Cor que apaga,
Pano que desbota,
Calçado que machuca.
A única que não falha
é a conta debaixo da porta.
Comprei um monte de coragem
Ela vem em potinhos coloridos
cujo conteúdo a gente passa nos olhos
antes de sair de casa.
Comprei também algumas certezas
Muito necessárias para não nos sentirmos nus de nós mesmos
Já a auto-confiança
Tive que procurar por longo tempo
Mas acabei encontrando.
Perguntaram-me se queria que as embalasse em caixas ou saquinhos
Preferi estes, assim posso acumular mais, em menos espaço.
Na hora de pagar, fiz o que se faz;
adiei para o mês que vem.
Tomei tempo emprestado,
achando que o comprei.
Tempo pra estar alegre,
no fim, gato por lebre.
Cor que apaga,
Pano que desbota,
Calçado que machuca.
A única que não falha
é a conta debaixo da porta.
Amigas paradoxais
Uma queria ser jornalista, a outra, advogada
A "jornalista" virou advogada
E a "advogada", analista (de sistemas)
Depois a "jornalista" estudou muito e se tornou servidora pública
E a "advogada" voltou para a escola e se tornou arquiteta
A "jornalista" encontrou o amor aos 16 anos e meio
A "advogada", aos 33
Antes disso eram só tentativas frustradas
(mesmo que levadas a sério)
O primeiro amor de uma foi o último da outra
Mas a história ainda está longe de acabar
Ambas se perguntam o que estão fazendo neste planeta
Onde foram parar seus sonhos ?
De que eram feitos ?
Para que serviam ?
A que quebrou todos os protocolos
Sabe exatamente como serão seus dias até envelhecer
A que tinha tudo planejado
agora não tem a mínima idéia do que fará amanhã
Existe alternativa ?
Alguma opção que não seja viver mecanicamente ou eternamente preocupado ?
Castrado ou surtado ?
Alguma explicação ?
Talvez só a resposta do Guimarães Rosa:
"O que a vida quer da gente é coragem"
Easier said than done.
A "jornalista" virou advogada
E a "advogada", analista (de sistemas)
Depois a "jornalista" estudou muito e se tornou servidora pública
E a "advogada" voltou para a escola e se tornou arquiteta
A "jornalista" encontrou o amor aos 16 anos e meio
A "advogada", aos 33
Antes disso eram só tentativas frustradas
(mesmo que levadas a sério)
O primeiro amor de uma foi o último da outra
Mas a história ainda está longe de acabar
Ambas se perguntam o que estão fazendo neste planeta
Onde foram parar seus sonhos ?
De que eram feitos ?
Para que serviam ?
A que quebrou todos os protocolos
Sabe exatamente como serão seus dias até envelhecer
A que tinha tudo planejado
agora não tem a mínima idéia do que fará amanhã
Existe alternativa ?
Alguma opção que não seja viver mecanicamente ou eternamente preocupado ?
Castrado ou surtado ?
Alguma explicação ?
Talvez só a resposta do Guimarães Rosa:
"O que a vida quer da gente é coragem"
Easier said than done.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Hoje sonhei com você
Sonhei que estávamos em pleno ato intergaláctico
De repente vi o mundo em 3D todo feito de estrelas
Deslizávamos em alta velocidade pela escuridão
Bocas e mãos em corpos indesgrudantes
Até explodirmos nós mesmos em luz
Acordei e a energia desse universo
ainda não escapou de mim.
De repente vi o mundo em 3D todo feito de estrelas
Deslizávamos em alta velocidade pela escuridão
Bocas e mãos em corpos indesgrudantes
Até explodirmos nós mesmos em luz
Acordei e a energia desse universo
ainda não escapou de mim.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Dias e dias
Temos dias urbanos e dias suburbanos. Dias em que queremos andar entre "as gentes", ver o movimento, fazer parte de algo além de nós mesmos. E dias em que não queremos ouvir uma única buzina. Sentir apenas o vento a nos empurrar para aquilo que queremos ser.
Nos dias urbanos enfrentamos o trânsito com bom humor. Peregrinamos de um lugar a outro, realizando as tarefas e dando OK na interminável lista que nos acompanha.
Nos dias suburbanos brincamos com o gato e colocamos a leitura em dia. Atualizamos também o exercício da contemplação. Com uma xícara de chá nas mãos, olhamos a janela durante horas enquanto nos entregamos a pensamentos que renovam a alma.
Nos dias urbanos, conversamos com os outros, trocamos gentilezas e sorrisos, nos socializamos.
Nos dias suburbanos, somos apenas nós mesmos e a solidão, a anti-matéria de que somos feitos.
O problema é quando misturamos tudo e temos que ir à cidade no dia em que queremos ficar fora dela, ou ficamos presos em casa, quando queríamos ver gente.
Aceitar que temos dias de um e de outro jeito nos ajuda a entender que a vida é feita mesmo de variações. Que alguns dias somos assim e outros, somos "assado". Às vezes estamos de mau humor sem motivo aparente, e às vezes achamos a vida a melhor coisa. E isso não é o fim do mundo.
Se somos assim conosco mesmos, imagina com os outros. Chegamos à conclusão, outro dia, de que não somos metades de laranjas como sugeriu o filósofo, mas metades de queijos suíços cheios de furos. Não temos que gostar-de-tudo-o-tempo-todo-no-outro nem em nós mesmos, mas sim, aprender a lidar bem com esses buracos. Com o vazio, afinal. Com o acaso. Com essa contraposição de que é feita a vida. Urbana ou suburbana, seja ela qual for.
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